Razões e Motivos

Este blog tem como objetivo falar sobre a história da aviação, modelismo (papel, scratch e plástico) de uma forma descontraída, exibindo técnicas artigos produzidos por mim, fazendo reviews de modelos e produtos. Aos poucos vou mostrar a minha já extensa coleção de modelos de papel na área da aviação e da militaria na escala 1/100, essa exibição vai estará sempre inserida com artigos relevantes a história da aviação, militaria, ficção científica, figuras, carros e navios, além da experiência de construir cada modelo. AVISO: Não disponibilizo nenhum modelo exposto aqui para download ou envio arquivos via email ou outro meio.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Handley Page O/400 "Bloody Paraliser" na escala 1/100

Depois de dois meses se arrastando, (a montagem vocês visualizaram parte dela nos WIP de Momento 17,18,19 e 20) finalmente concluí essa montagem, aconteceu tanta coisa no meio dela que pensei em desistir desse modelo, embora não tenha nada de errado nele. Seu longo período de gestação justifica-se , por que trabalhei nele somente aqui em casa uma média de uma a duas horas por semana. 


O avião é extremamente interessante, é uma reprodução do bombardeiro estratégico Handley Page O/400 usado pela RAF há exatos 100 anos atrás na I Guerra Mundial, a guerra que deveria acabar com todas as guerras. 

 
A variedade de aeronaves e o gigante tamanho dos aviões de hoje, nos fazem esquecer as vezes o quão extraordinário eram aeronaves como essas, considerando que quando o avião foi inventado por Santos Dumond uma década antes, era praticamente impossível pensar em tipos como o O/400. 


Esse modelo foi usado pela Real Força Aérea Inglesa para bombardeiros estratégicos, sendo um dos inauguradores da doutrina militar de bombardeiro pesado de penetração, podendo carregar até 800 kg de bombas. 




Os O/400 eram chamados de "Bloody Paraliser", por serem considerados uma arma de destruição em massa. Com o fim da Guerra foi desenvolvida uma versão civil para transporte de passageiros, a HP-16 que foi usada nas primeiras linhas comericais inglesas na década de 1920. 



Modelo da Murph's Models com poucas modificações, contei mais de 130 peças e 90 segmentos de cabos para representar os cabos tensores de pouso e de vôo, reduzido como sempre para escala 1/100.




Modelo altamente recomendável, disponivel para compra e download na Murph's Models.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Reflexões da Bancada 12 - O Dia do Desastre

Resolvi esperar uns dias para escrever sobre o resultado das eleições presidenciais, até ter um pouco de estômago e ler algumas análises. Mas antes gostaria de transcrever uma carta que escrevi para as minhas filhas (e de quebra aos meus afilhados). Esta carta foi extensamente modificada, pois era para ser póstuma (nunca sabemos o dia de amanhã não é mesmo?), mudei totalmente o cunho dela. Originalmente publiquei  ela no facebook no dia da votação no 1º turno mas para começar quero a transcrever aqui:


Júlia e Maria Eduarda, originalmente escrevi essa carta para que ela fosse aberta muitos anos para frente, quando eu já não tivesse aqui, mas achei oportuno a divulgar agora com algumas modificações e a deixo público para os que nas nossas redes sociais a leiam por que acho pertinente.
Como vocês sabem nasci em 1972, esse ano já distante no já distante século XX, foi uma época extremamente conturbada, ainda se vivia a guerra fria, a qualquer momento os Estados Unidos e a então União Soviética podiam acabar com a civilização através de uma guerra nuclear global, se viviam violências e guerras menores pelo Mundo todo e no Brasil se vivia a ditadura em sua face mais cruel, os avós de vocês perderam amigos que nunca mais foram vistos e sofreram perseguições as mais variadas, se vivia a mordaça e a censura, na base do totalitarismo e da lobotomia social.
Vivi a minha vida acreditando como ser social que poderíamos construir uma sociedade mais justa e mais humana, sonhei isso para vocês minhas filhas e sonhei isso antes de vocês existirem, mas no entanto os sonhos de um velho também envelhecem e só se renovam se os jovens voltam a os sonhar…
Nos anos 80 o Brasil voltou a ser um país democrático, ainda que extremamente desigual e a desigualdade ainda persiste, como uma chaga, a ganância e a falta de consciência social, ou de classe como diriam os velhos marxistas é a origem de quase todos os problemas do Brasil e consequente dos que nos cercam de formas diretas e indiretas.
Minha juventude foi vivida na luta por ideais socialistas, essa luta se estendeu durante a minha passagem no ensino superior e posteriormente em boa parte da vida adulta, me forjei professor embora não tenha trabalhado diretamente com ensino uma boa parte da minha vida como vocês testemunharam ao longo do tempo.
No entanto, apesar de todas essas lutas e alguns períodos em que tive orgulho de ter feito parte por que tive a ilusão de que começaríamos um período de prosperidade material e espiritual para o povo brasileiro, as trevas voltam e como de uma forma não vista desde os anos 60. E elas vem de dentro do coração das pessoas, para além do maquineismo político-partidário. A quintessência do mal é desfavorecer quem mais precisa, é banalizar a violência, negar e torcer a história como justificativa para atrocidades passadas e futuras, perseguir minorias, não aceitar diferenças sejam de que tipo for, transformar a ganância pelo dinheiro e pelo poder em ideais a serem perseguidos, acreditar em falsos profetas que pregam a individualidade em nome de Deus ou de Jesus e fazem fortuna baseado no desespero e na miséria dos que sofrem.
A história ao contrário do ditado popular nunca se repete, nós seres humanos é que temos a tendência de repetirmos os mesmos erros, seja na nossa existência seja socialmente enquanto grupos de pessoas, muitas vezes em benefício próprio, por que eles acomodam espaços onde a falta de amor seja próprio ou não exige.
Por isso que a Alemanha de hoje enxerga o Brasil com incredulidade e com os avisos sobre o perigo do Nazismo, pois o povo alemão elegeu em circunstâncias muito semelhantes na década de 1930, um pequeno partido que se dizia nacionalista e que acabaria com a corrupção através de um líder carismático, um chefe da nação, daí a expressão Fühler, a semelhança com alguns elementos de um certo pequeno partido que se diz cristão que concorre hoje a presidência do nosso país é evidente. O sangue de milhões de pessoas teve que ser derramado na Segunda Guerra Mundial, inclusive na nossa família para que esses ideais fossem esquecidos e superados.
Hoje é dia 7 de outubro, dia de eleições, a primeira que votei foi em 1989, junto com a vó de vocês que nunca havia votado na vida, esse direito foi conquistado com o sangue de milhares de pessoas e com a destruição dos sonhos de uma ou duas gerações de Brasileiros pela ditadura e pelos grupos que estão representados no partido do "Coiso", e ironicamente esse direito pode estar nesse momento em que escrevo usado para colocar no poder uma candidatura que representa essa quintessência do mal e justamente as ideias pelas quais lutei contra a vida toda.
Queria minhas filhas e também meus afilhados que talvez leiam essa carta no futuro já com o distanciamento temporal e histórico necessário que as pessoas que estão votando no “Coiso” como se propagou na internet, não estão votando na figura, ele é um parasita de estado, um militar medíocre, um político que nunca fez nada a não ser ocupar espaços, e certamente é o mais despreparado dos candidatos a presidência da república. As pessoas estão votando nele como uma forma na verdade de expressar a sua pobreza espiritual com toda a falta de sensibilidade, cultura e razão como diria Bebeto Alves na sua música “Pegadas”.
Então chegou o momento de pedir desculpas, minha geração falhou miseravelmente com vocês e com a geração do Guilherme e do Rafael, não transformamos o Brasil no país do futuro: o transformamos num balcão de negócios, onde o dinheiro não gera sabedoria , nem cuidado e proteção, onde a cultura e a educação são secundarizadas e ridicularizadas, onde a verdade é apenas um ponto de vista, onde a justiça serve apenas para quem tem. Falhamos em não educar as pessoas para negar absurdos por consciência própria, falhamos por não realimentar os sonhos de um Mundo verdadeiramente livre, falhamos quando conhecimentos acumulados em mais de mil anos de ciência e história são questionados por virais na internet com afirmações que a Terra é plana ou como o nazismo era de esquerda.
Neste momento, e não importa em quem se vota contra “o coisa” estamos travando uma luta entre a civilização constituída após o Renascimento ao fim da idade média e a barbárie representada pela face mais cruel do capitalismo. Estamos lutando nas urnas, nas ruas e nas mentes das pessoas pela defesa de um país democrático, multirracial, plural, laico, esta talvez seja a última e derradeira luta do pai de vocês e do tio, não importando muito isso, será uma boa luta…
Minha esperança minhas filhas e também meus afilhados é que vocês façam o que não pudemos fazer, lutem para transformar o Brasil em um lugar que tenhamos orgulho de ter nascido e morrido, sejam pessoas sensíveis, corretas para que o mal nunca mais pense em tentar se instalar permanentemente nas mentes e almas de todos os nossos irmãos e irmãs.
Se vocês pelo menos tentarem, a vida do pai e do Dindo teve sentido...

Este texto todo emocionado ainda é pertinente e agora quero falar um pouco sobre a eleição e o que talvez nos espere em pouco tempo...

O avanço da extrema direita no Mundo não é algo que começou ontem e ainda precisa de explicações que infelizmente só serão realmente construídas no futuro, por que o fenômeno continua acontecendo. Porém podemos situar como um marco, os atentados às Torres Gêmeas em 2001, que reorganizaram a geo-política mundial e consequentemente as interfaces entre o Mundo "rico" e o Mundo "pobre", inicia-se algo que escutei a primeira vez do professor Luis Dario chamado de guerra híbrida,  um novo modelo de imperialismo em busca não apenas dos controles de fronteira ou de controles econômicos, mas fundamentalmente dos recusos naturais com a cooptação dos capitais políticos e econômicos locais. 

Este novo modelo de controle da economia mundial, constituido também através dos controles das tecnologias da informação que explodiram em avanços nos anos de 1990, são os grandes motivadores por trás da ascenção dessa nova extrema direita no Mundo, que embora utilize-se de conceitos e realidades históricas presas ao passado, notadamente dentro do contexto dos séculos XIX e XX é motivada por esses movimentos da guerra hibrida procurando desestabilizar países que sejam estratégicos num futuro cenário global. Estabelecendo modelos ultraneoliberais como visão e prática permissiva do acesso a estes recursos e pela geração de riqueza que necessáriamente não passa ou é participada pelas populações exploradas. Este novo modelo de conflito parte para uma guerra convencional quando todos as demais ações acabam ineficazes (a exemplo da II Guerra do Iraque, da intervenção do Afeganistão e mais para trás, a intervenção na guerra civil da Ex Iugoslávia), ele atualmente é promovido não somente pelas três maiores potencias econômicas e militares do Planeta (EUA, China e Rússia), mas por grupos econômicos de dentro destes países, ela não tem motivação ideológica, como ocorreu nos conflitos polares do pós II Guerra Mundial  (Guerras Árabe-Israelenses, Guerras da Coréia e do Vietnan, guerra civil do Afeganistão e tantas outras) que caracterizaram a polaridade da Guerra Fria entre EUA e a então URSS, ou mesmo como foi o grande confilto ideológico que marcou a II Guerra Mundial. Sua pauta econômica deixa as ideologias como apenas um suporte relativo as suas motivações, os debates políticos por determinados recursos ou extensões territoriais, servem como uma falácia para a opinião pública do alvo acreditar ou não, e dentro desta lógica, a internet e mais recentemente dispositivos de comunicação como redes sociais e trocadores instantâneos de mensagens hoje são ferramentas fundamentais na manipulação desta opinião pública.

Aos poucos os grupos econômicos (não necessariamente uma empresa só) estão conseguindo controlar governos tanto nestes paises centrais no capitalismo do século XXI quanto nas chamadas economias periféricas.

Dito isto agora vamos falar de nós um pouco e sobre o advento da eleição de Jair Bolsonaro.

No entanto para falar sobre outubro de 2018 temos que recuar para a primeira década do século XXI com a eleição do Lula. O modelo neoliberal globalizado clássico entrava neste momento em esgotamento político na América do Sul e nos primeiros anos deste século foram surgindo lideranças como Evo Moralles, Hugo Chavez, Lula os Kirchner, Pepe Mujica, de diferentes tendências de esquerda, mas para bem longe dos modelos do socialismo real que caracterizou o processo de um dos lados da Guerra Fria. Neste momento tirando a Bolívia e especialmente a Venezuela que foi para um viés autoritário e em muitos casos totalitário, todos os demais governos de esquerda da América Latina eram ou são na verdade social democratas, com um capitalismo desenvolvimentista, ou no mínimo com a busca pela equidade social.

A retirada de cena na política de alguns grupos oligarquicos seculares fez a guerra híbrida se voltar para o continente, inicialmente interessada na água, principalmente por causa do aquífero Guarany, a maior reserva de água potável do Mundo, presente no subsolo de boa parte do território do nosso continente, mas mais recentemente a descoberta do pré sal foi definitiva para colocar o Brasil como um ponto focal da Guerra.

A ausência de uma resposta política aos governos Petistas no campo convencional foi o que levou a crise política que inicialmente foi instalada com o mensalão em 2006 e posteriormente com a investigação da Petrobras, aliado a isso a política exterior Brasileira até 2016 que buscava autonomia econômica e soberania nacional. 

Mas o que era exatamente essa crise política? Qual a gênese dela? Ainda não existe uma resposta integral para a mesma, mas podemos em linhas gerais salientar dois aspectos: O primeiro foram os erros do próprio Partido dos Trabalhadores, que não cabem ser analisados neste pequeno ensaio, mas que no senso comum são tidos no imaginário coletivo como uma "traíção" ao povo, por que durante muitos anos o PT vendeu a idéia de partido de pessoas "boas" e "corretas" (o grifo é de observação de campo minha), que praticavam a "boa política". Técnicamente podemos indicar que esse sentimento de frustração da sociedade Brasileira, especialmente dos estamentos médios (a vulga classe média, teoricamente com maior escolaridade, acesso a informação e esclarecimento) na verdade foi promovido por que o debate interno  do partido, sobre a sua natureza, se seria de massas ou de quadros, ele foi perdido nos anos 80 (Vito Gianotti faz uma análise muito interessante em dos seus livros sobre este debate), levando a burocratização e institucionalização, o PT ao contrário do que dizem hoje seus opositores, dos mais sofisticados aos mais histéricos, nunca foi um partido "bolivariano" ou comunista no sentido clássico da palavra. Embora suas tendências internas busquem o socialismo, o papel do PT nos últimos vinte anos tem sido muito parecido com a Social Democracia alemã dos anos 60 e 70 e dadas as particularidades do Brasil. O PT aceitou participar do jogo tradicional da política brasileira, de certa forma substituindo o papel nacionalista e desenvolvimentista históricamente atribuido ao PTB e ao PDT, pois o trabalhismo até 2006 ficava divido entre centro-direita e centro-esquerda. Este papel desenvolvimentista, contrario ao capital globalizado e rentista, com governos de coalizão nacional acabaram custando o fim de qualquer papel revolucionário, transformando o PT em mais um "partido", que por mais que tenha tido uma excelente atuação nos anos que governou o Brasil, ele sucumbiu ao jogo político revelando uma quantidade imensa de vulnerabilidades, e de incoerências políticas e mesmo teóricas que foram substituidas por um pragmatismo em nome do poder e de um projeto maior. Não vou fazer a minha crítica ao PT aqui ou uma auto-crítica, mas a revisão, ela mais do que nunca é necessária.


O segundo aspecto dessa crise política advém do esgotamento do ordenamento jurídico social brasileiro. Este eu considero um aspecto importante, que pouco vejo analisado por quem escreve sobre esses temas. No segundo governo Dilma, houveram o envio para o Congresso Nacional de projetos de reforma política, de comunicação e tributária, que foram barradas e engolfadas pelos acontecimentos do inverno de 2013. Mas novamente um questionamento: Se as jornadas de julho de 2013 que inicialmente questionavam apenas o aumento das passagens de ônibus se transformou em um grande movimento questionando o sistema político e social, por que ele não aconteceu antes? Ao meu ver e conhecendo pessoalmente algumas lideranças que atuaram no Bloco de Lutas contra o aumento da Passagem aqui em Porto Alegre, o movimento que não foi coordenado originalmente a nível nacional, foi inflado por agentes externos, que viram nele uma ponta de lança a desestabilização do sistema político Brasileiro (objetivo primário da Guerra Híbrida no Brasil), transformando-se em um primeiro questionamento ao sistema vigente. Esse questionamento universal, deu voz a grupos outrora desconhecidos como o MBL que aproveitando-se de pautas rebaixadas  e do amplo mecanismo de divulgação da Internet através das redes sociais e comunicadores de Mensagem começaram pouco a pouco ganhar terreno de uma opinião pública pouco esclarecida e ao mesmo tempo cansada do ordenamento referido no começo desse parágrafo. Os acontecimentos como sabemos foram rápidos e vertiginosos, a reeleição da Dilma em 2014 por pouca margem de votos em relação ao candidato de direita o então senador Aécio Neves e ao mesmo tempo a consolidação de uma série de mecanismos de auditoria e governança que foram constituidos nos governos do PT, levaram por insistência da própria Dilma a uma ameaça ao "establishment" político. A Operação Lava Jato da Polícia Federal foi a porta que os blocos políticos de direita acharam para inviabilizar o governo que em várias dimensões não atendia as demandas do capital rentista, que ameaçava a geopolítica internacional que com o surgimento do BRICS buscava um novo reordenamento do comercio internacional. O Banco do BRICS e a ameaça do abandono do dólar como moeda de conversão internacional para as exportações foi decisiva ao apoio externo oculto a direita assumir o controle da Lava a Jato e ser totalmente descarada e imoral nos movimentos jurídicos que levaram a destituição da Dilma através do Impeatchman de 2016 e da prisão do Lula em 2018.

A Crise Politica levou ao final a um questionamento sistêmico de confiança nos políticos e partidos tradicionais, a Lava Jato criou um amplo aspecto de evidências de corrupção em diferentes níveis. No entanto algumas constatações que ao meu ver são válidas:

A primeira é que a corrupção sistêmica a nível governamental é um mal secular na política Brasileira, surgida ainda no século XVIII, intensificada durante a ditadura militar e organificada como a conhecemos hoje na segunda metade do século XX,  assim esta cultura se reflete nas atitudes da nossa sociedade, se reflete em seus valores e nas relações pessoais de cada Brasileiro, a lógica de senso comum é simples: "se o governo rouba, por que não posso fazer o mesmo?", esse consentimento coletivo, aliado a uma sensação de impunidade constituída a partir de uma premissa básica do nosso direito em que o amplo direito a defesa e a presunção de inocência são torcidos em favor de quem tem recursos para operar, assim crimes de "ricos" passam impunes enquanto de "pobres" são executados, dão uma idéia de que necessariamente quando há crime nem sempre há castigo. Essa noção tangenciada da corrupção e da impunidade cristalizou-se na forma como o brasileiro examina e entende a corrupção, inclusive com a aceitação de atos corruptos quando esses são a favor do seu ponto de vista, seja individual ou de determinado grupo.

A segunda constatação advém do processo histórico da sociedade brasileira, notadamente quando ela se diversificou no final do Século XVIII. Nossa sociedade, teve sua gênese na sociedade medieval portuguesa, assim tradicionalmente e culturalmente vários preconceitos ou percepções antiquadas são repassados de geração em geração e transformados com os processos históricos, mas permanecem na sua essência, estes últimos cinco anos mostraram que o Brasileiro está longe de ser uma cultura totalmente plural, miscigenada, tolerante. Pelo contrário: Os brasileiros em todos os níveis são machistas, misógenos, intolerantes, homofóbicos, racistas. O generalismo da constatação pode constratar com as singularidades regionais de um país continental como o nosso, mas infelizmente as eleições presidenciais de 2014 e 2018 são gritos da cristalização destes preconceitos. Essas manifestações de longo prazo nunca tiveram reparações históricas, assim a dívida histórica com a escravidão, ou mesmo com eventos históricos mais recentes (como a prisão de torturadores do regime miltar) e impactantes na sociedade brasileira permanecem inconciliadas.

A terceira constatação, ligada a segunda tem a ver com o processo educacional do Brasileiro, nossa educação formal, seja ela advinda do dito "seio familiar" (pelos fatores citados anteriormente) seja aquela fornecida pela escola não consegiu secularmente romper essa matriz cultural citada antes. Processos históricos que interviram diretamente na escola e em suas políticas ao longo do tempo, para citar  as mais recentes, a reforma de ensino de 1974 promovida pela ditadura e posteriormente a Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996, abriram brecha para uma escola e um ensino que o técnico se consolida em detrenimento ao humano, um ensino dessa natureza propicia a falta de empatia e solidariedade e pode ser um dos caminhos para explicar alguns absurdos que temos assistido manifestados por pessoas comuns nas redes sociais principalmente, a ausência de um pensamento crítico que o ensino eminentemente técnico não propicia é a razão pela qual o ódio e a falta de noção da realidade se instala. Ligando isso ao fato que a internet deixou aguda a falta de compreensão das coisas e dos fatos, que ocorria de forma não tão integral antes pela manipulação dos antigos MCM (Meio de Comunicação de Massas) como a TV e o Rádio e hoje de forma muito efetiva através das redes sociais através das Fake News ou pelo simples excesso de informação de baixa qualidade. (lembrem-me que quero escrever mais sobre isso)
 
Estas manifestações advindas desta crise sistêmica, provocada por agentes internos e externos foram o que levaram ao final e ao cabo a eleição de Jair Bolsonaro a Presidência da República. A ascenção da extrema-direita é um projeto internacional, embora como citamos ele não esteja clarificado em todas as suas nuances, certamente ele é o pior desastre da história recente do Brasil e consolida uma continuação piorada do governo de Michel Temer com degenerações em suas linhas políticas.

Não cabe aqui fazer futurologia sobre o que será um governo do PSL, mas alguns indícios mostram que teremos um estado que se posicionara fora da premissa laica (isso que optei em não abordar o papel das igrejas neo-pentecostais neste processo), apesar de ter alguns componentes históricos que advém do nacionalismo e da idéia de segurança nacional do periodo secundário da ditadura, teoricamente e praticamente é um governo ultra-neoliberal, que entregará os recursos do Brasil ao capital rentista internacional e aumentará o abismo e a concentração de renda e riqueza, e nesta parte final do artigo quero colocar algumas impressões sobre o que vimos na mais incomun das eleições que já presenciei em toda a minha vida.

A primeira impressão é a polarização do Brasil entre esquerda e direita, embora essa divisão seja evidente e é fruto dos avanços sociais e democráticos das últimas décadas, a direita tradicional foi substituida por uma direita difusa e obtusa, liberal na economia e conservadora em seus costumes, já o alter-ego da esquerda é liberal, fracionada em mil tendências e progressista nos costumes com o rompimento do status quo social secular. A crise aumentou a polarização, a permissividade com a corrupção a falta de perspectiva e a crise econômica construiu um culto a um mito de direita, uma figura alegórica de salvação nacional, um homem de senso comum, que fala todos aqueles ranços sociais entranhados que citamos e promete ações enérgicas e autoritárias contra a corrupção e a favor dos valores tradicionais do Brasil, o discurso anacrônico trouxe a idéia de um diferencial radical no jogo político que atraiu um sem número de pessoas de todas as classes sociais com o apoio de diversos setores do capitalismo brasileiro, notadamente o rentista e o comercial (que necessáriamente não gera desenvolvimento), este é Jair Bolsonaro, em 2014 seria inacreditável a eleição desta pessoa. O candidato da esquerda com um escopo político maior, foi prefeito de São Paulo e em comparação com o Jair tinha um oceano de distância.  Fernando Haddad representava (claro que aqui está a minha posição política) o Brasil do século XXI. Essa polarização que inclui a demonização em especial do PT pelo golpe parlamentar de 2016 e como efeito secundário o descrédito em todo o sistema político vigente empurrou a polarização para o segundo turno. A saída de cena do Lula como parte do golpe acabou credenciando o Haddad que lutou uma eleição onde a sua campanha por si só estava obsoleta no que tange a metodologia e o enfrentamento das fake news.

A segunda impressão, vem da incredulidade dos meus amigos modelistas no exterior que me perguntam como elegemos o Bolsonaro em um sistema democrático avançado, já que ele representa retrocesso a manutenção deste sistema, e como as pessoas não conseguem reconhecer  os avanços dos governos petistas? As respostas não são fáceis, mas acho que uma das coisas que a sociedade Brasileira nunca desenvolveu ou desenvolveu parcialmente é uma consciência de classe, o pobre que tem pouco, é intolerante a pobreza alheia de quem tem menos, não se solidariza e não reconhece o ainda mais pobre como um semelhante. A classe média se acha abastada e não tolera a emergência de outros setores ou estamentos sociais mais pobres por políticas sociais ou de distribuição de renda (o que é um disparate, se considerarmos que a Europa começou a fazer ainda antes da II Guerra Mundial e intensificou após o conflito), cotas, bolsa-família e outras políticas são vistas por muitos como esmolas que não cabem a visão meritocrática e emprendedorista do capitalismo imaginário do século XXI. Além da falta de identificação e consciência de classe, temos uma ignorância política que personaliza a mesma, as pessoas tem idéias de senso comum equivocadas sobre a filosofia política, a economia politica. (como acreditar na ameaça do Comunismo como o capitalismo imperialista o temia no pós revolução Russa de 1917).  Isso leva o voto ao personalismo e a identificação com pautas que tanto podem ser nobres como extremamente rebaixadas, independente do partido o que explica o avanço impiedoso nas eleições proporcionais ao senado e a camara dos deputados de uma renovação "viciada" em deputados e senadores de extrema direita que em nenhum outro lugar do Mundo civilizado seriam eleitos sejam por ideias sejam pelas figuras que são na sociedade.

A terceira impressão é o jogo eleitoral que foi como em outros lugares, influenciado pelos mecanismos criados por Steve Bannon no sentido de manipular a opinião pública através de noticias falsas (as famosas fake news). cabe lembrar que elas sempre existiram, algumas em diversas sociedades viraram lendas urbanas (quem não lembra nos anos 80 da promoção de comer baratas albinas em um shopping e ganhar um carro, essa noticia plantada obviamente prejudicava o estabelecimento) a difusão das noticias falsas foram (e são) uma arma de guerra na Guerra Híbrida que influenciaram diretamente a eleição, assim como influenciou o Brexit, e as eleições presidenciais nos EUA. O Facebook percebeu tarde demais o que estava acontecendo no Brasil e após as denuncias das ilegalidades tardiamente após o primeiro turno, deu um shutdown nos robôs da campanha do Bolsonaro ao contrário da justiça eleitoral  que foi conivente ao financiamento empresarial  por parte do capitalismo comercial Brasileiro (exemplo clássico: Havan) de forma clandestina e ilegal, mas era tarde demais, o estrago estava feito: Bolsonaro não foi eleito com a totalidade dos votos, brancos e nulos mais a votação do Haddad davam mais de 85 milhões de votantes. No entanto a campanha petista, obsoleta e inerte perante esse mecanismo de mentiras e confusão mais a "tapação de nojo" de parcela significativa do eleitorado não consegiu virar o jogo e neo-fascismo brasileiro entra na cena novamente desta vez para ficar...

A quarta impressão é sobre o Fascismo Difuso, ou esse neo-fascismo e a idiotização da sociedade. Embora eu tenha apontado aqui uma série de elementos que buscam explicar a redução intelectual e por que não dizer espiritual da sociedade brasileira, ainda me restam dúvidas de como coisas que há quinze anos atrás as pessoas só falariam bêbadas, se transformam em orgulho de serem proferidas e se transformaram em prática política. Isso explica por que o pensamento crítico tende a colocar o futuro governo do Bolsonaro como fascista. O Fascismo é inimigo da tolerância, da cultura, do conhecimento e da diversidade. Relatos recentes de agressão a professores, questionamento do ensino através de projetos tacanhos como o "escola sem partido", perseguição a artistas e intelectuais  através de ideias proferidas pelo "Blosonarismo" ou até mesmo pelo próprio por seu núcleo político e mesmo diretamente de futuros membros do seu governo, acabam nos remetendo  as décadas em que o Fascismo italiano esteve no poder durante as primeiras décadas do século XX. Na Itália de Mussolini, era chique ser "burro", ou melhor: iletrado e simplório, demorou um certo tempo e uma guerra mundial para que a Itália se desse conta do mal que tinha se estabelecido e pendurasse o corpo do "Duce" num gancho de açougue, li em algum lugar que Frederico Felini disse que “A época do fascismo elevou a imbecilidade ao nível de pensamento político”, nada de diferente do que estamos vicenciando, antes, durante e depois destas eleições. Outro grande crítico do fascismo, Umberto Eco colocava que a cultura quando questionadora do sistema virava sua inimiga conjurada, mas para além de ser suspeita ou subversiva era imoral e deplorável para esta sociedade de totalitarismos. Tanto Felini como Umberto Eco ao final tinham conhecimento de causa, pois viveram uma parte de suas vidas no fascismo. As eleições nesta impressão serviram para evidenciar como nossa sociedade tornou-se descaradamente bruta e má, pois a maldade se manifesta na irracionalidade e no ódio face ao desconhecimento.

Enquanto escrevia esse artigo o novo governo já diz a que veio e anuncia uma série de medidas ligadas a sua matriz ideológica e econômica para 1º de janeiro de 2019, medidas que certamente irão lesar gerações de Brasileiros, pois são baseadas no descaramento da amoralidade em todos os sentidos políticos e em um receituário econômico que não funcionou em nenhum lugar e em nenhum tempo histórico.

Ainda é dificil dizer o que serão esses quatro anos de governo, (no começo do artigo já esboçei algumas impressões), mas não quero arriscar prognósticos, apenas arrisco dizer (alias escrever esse artigo já penso ser arriscado daqui para fente) que teremos um estado democrático travestido de ditadura teocrática, teremos uma praxis politica e jurídica abusada, repressões e linxamentos virtuais e alguns reais pela intolerância e pela perseguição ao contrário e ao contraditório (quem não lembra do suicido do reitor da UFSC Luis Carlos Cancellier de Olivio que foi preso de forma pouco convencional para dizer o mínimo pela Polícia Federal, baseado em boatos). O despreparo de Bolsonaro para lidar com questões internas e externas é evidente, em uma semana sem assumir ele já fez um conjunto de trapalhadas na política externa que podem custar bilhões em exportações para o Mundo Árabe contrariando uma política externa brasileira de mais de cinquenta anos de tradição de manter-se neutra na questão político-militar na região.

Por isso amigos dia 28 de Outubro foi o dia do desastre, espero que quem votou na figura, quem se absteve e que tenha pensamento crítico tenha bem claro, tenha a consciência que pela desilusão ou pelo ódio ao PT nos levou para um caminho escuro, que pode demorar muitas décadas para ser reparado, ao final a escolha entre Bolsonaro e Haddad foi um combate entre trevas e luz...

Infelizmente as trevas venceram...

As trevas não são o maquineismo entre o bem e o mal segundo a lógica cristã...

As trevas são um projeto...

As trevas são uma manobra militar...

Por fim, acho pertinente transcrever o discurso do Senador Roberto Requião (MDB) na tribuna livre do Senado no último dia 30 de outubro, ele sintetiza de forma brilhante o que estou escrevendo aqui:


Lava Jato, trair a Pátria não é crime? Vender o
país não é corrupção?

O juiz Sérgio Moro sabe; o procurador Deltan Dallagnol tem plena ciência.

Fui, neste plenário, o primeiro senador a apoiar e a conclamar o apoio à Operação Lava Jato. Assim como fui o primeiro a fazer reparos aos seus equívocos e excessos.

Mas, sobretudo, desde o início, apontei a falta de compromisso da Operação, de seus principais operadores, com o país.  Dizia que o combate à corrupção descolado da realidade dos fatos da política e da economia do país era inútil e enganoso.

E por que a Lava Jato se apartou, distanciou-se dos fatos da política e da economia do Brasil?

Porque a Lava Jato acabou presa, imobilizada por sua própria obsessão; obsessão que toldou, empanou os olhos e a compreensão dos heróis da operação ao ponto de eles não despertarem e nem reagirem à pilhagem criminosa, desavergonhada do país.

Querem um exemplo assombroso, sinistro dessa fuga da realidade?

Nunca aconteceu na história do Brasil de um presidente ser denunciado por corrupção durante o exercício do mandato. Não apenas ele.

Todo o entorno foi indigitado e denunciado. Mas nunca um presidente da República desbaratou o patrimônio nacional de forma tão açodada, irresponsável e suspeita, como essa Presidência denunciada por corrupção.

Vejam. Só no último o leilão do petróleo, esse governo de denunciado como corrupto, abriu mão de um trilhão de reais de receitas.

Um trilhão, Moro!
Um trilhão, Dallagnoll!
Um trilhão, Polícia Federal!
Um trilhão, PGR!
Um trilhão, Supremo, STJ, Tribunais Federais, Conselhos do
Ministério Público e da Justiça.
Um trilhão, brava gente da OAB!

Um trilhão de isenções graciosamente cedidas às maiores e mais ricas empresas do planeta Terra. Injustificadamente. Sem qualquer amparo em dados econômicos, em projeções de investimentos, em retorno de investimentos.  Sem o apoio de estudos sérios, confiáveis.

Nada! Absolutamente nada!

Foi um a doação escandalosa. Uma negociata impudica.
         
Abrimos mão de dinheiro suficiente para cobrir todos os alegados déficits orçamentários, todos os rombos nas tais contas públicas.

Abrimos mão do dinheiro essencial, vital para a previdência, a saúde, a educação, a segurança, a habitação e o saneamento, as estradas, ferrovias, aeroportos, portos e hidrovias, para os próximos anos.

Mas suas excelentíssimas excelências acima citadas não estão nem aí. Por que, entendem, não vem ao caso?

Na década de 80, quando as montadoras de automóveis, depois de saturados os mercados do Ocidente desenvolvido, voltaram os olhos para o Sul do mundo, os governantes da América Latina, da África, da Ásia entraram em guerra para ver quem fazia mais concessões, quem dava mais vantagens para “atrair” as fábricas de automóveis.

Lester Turow, um dos papas da globalização, vendo aquele espetáculo deprimente de presidentes, governadores, prefeitos a oferecer até suas progenitoras para atrair uma montadora de automóvel, censurou- os, chamando-os de ignorantes por desperdiçarem o suado dinheiro dos impostos de seus concidadãos para premiarem empresas biliardárias. 

Turow dizia o seguinte: qualquer primeiroanista de economia, minimamente dotado, que examinasse um mapa do mundo, veria que a alternativa para as montadoras se expandirem e sobreviverem estava no Sul do Planeta Terra. Logo, elas não precisavam de qualquer incentivo para se instalarem na América Latina, Ásia ou África. Forçosamente viriam para
cá.

No entanto, governantes estúpidos, bocós, provincianos, além de corruptos e gananciosos deram às montadoras mundos e fundos.

Conto aqui uma experiência pessoal: eu era governador do Paraná e a fábrica de colheitadeiras New Holland, do Grupo Fiat, pretendia instalar- se no Brasil, que vivia à época o boom da produção de grãos.

A Fiat balançava entre se instalar no Paraná ou Minas Gerais. Recebo no palácio um dirigente da fábrica italiana, que vai logo fazendo numerosas exigências para montar a fábrica em meu estado. Queria tudo: isenções de impostos, terreno, infraestrutura, berço especial no porto de Paranaguá, e mais algumas benesses.

Como resposta, pedi ao meu chefe de gabinete uma ligação para o então governador de Minas Gerais, o Hélio Garcia. Feito o contanto, cumprimento o governador: “Parabéns, Hélio, você acaba de ganhar a fábrica da New Holland”. Ele fica intrigado e me pergunta o que havia acontecido.

Explico a ele que o Paraná não aceitava nenhuma das exigências da Fiat para atrair a fábrica, e já que Minas aceitava, a fábrica iria para lá.

O diretor da Fiat ficou pasmo e se retirou. Dias depois, ele aparece e comunica que a New Holland iria se instalar no Paraná.

Por que?

Pela obviedade dos fatos: o Paraná à época, era o maior produtor de grãos do Brasil e, logo, o maior consumidor de colheitadeiras do país; a fábrica ficaria a apenas cem quilômetros do porto de Paranaguá; tínhamos mão-de-obra altamente especializada e assim por diante.

Enfim, o grande incentivo que o Paraná oferecia era o mercado.

O que me inspirou trucar a Fiat? O conselho de Lester Turow e o exemplo de meu antecessor no governo, que atraiu a Renault, a Wolks e a Chrysler a peso de ouro e às custas dos salários dos metalúrgicos paranaenses, pois o governador de então chegou até mesmo negociar os vencimentos dos operários, fixando-os a uma fração do que recebiam os
trabalhadores paulista. Mundos e fundos, e um retorno pífio.

Pois bem, voltemos aos dias de hoje, retornemos à história, que agora se reproduz como um pastelão.

O pré-sal, pelos custos de sua extração, coisa de sete dólares o barril, é moranguinho com nata,, uma mamata só!

A extração do óleo xisto, nos Estados Unidos, o shale oil , chegou a custar até 50 dólares o barril;

O petróleo extraído pelos canadenses das areias betuminosas sai por 20 a 30 dólares o barril; as petrolíferas, as mesmas que vieram aqui tomar o nosso pré-sal, fecharam vários projetos de extração de petróleo no Alasca porque os  custos ultrapassavam os 40 dólares o barril.

Quer dizer: como no caso das montadoras, era natural, favas contadas que as petrolíferas enxameassem, como abelhas no mel, o pré-sal. Com esse custo, quem não seria atraído?

Por que então, imbecis, por que então, entreguistas de uma figa, oferecer mais vantagens ainda que a já enorme, incomparável e indisputável vantagem do custo da extração?

Mais um dado, senhoras e senhores da Lava Jato, atrizes e atores daquele malfadado filme: vocês sabem quanto o governo arrecadou com o último leilão?   Arrecadou o correspondente a um centavo de real por litro leiloado.

Um centavo, Moro!
Um centavo, Dallagnoll!
Um centavo, Carmem Lúcia!
Um centavo, Raquel Dodge!
Um centavo, ínclitos delegados da Policia Federal!

Esse governo de meliantes faz isso e vocês fazem cara de paisagem, viram o rosto para o outro lado.

Já sei, uma das razões para essa omissão indecente certamente é, foi e haverá de ser a opinião da mídia.

Com toda a mídia comercial, monopolizada por seis famílias, todas a favor desse leilão rapinante, como os senhores e as senhoras iriam falar qualquer coisa, não é?

Não pegava bem contrariar a imprensa amiga, não é, lavajatinos?
                               
Renovo a pergunta: desbaratar o suado dinheiro que é esfolado dos brasileiros via impostos e dar isenção às empresas mais ricas do planeta é um ou não é corrupção?

Entregar o preciosíssimo pré-sal, o nosso passaporte para romper com o subdesenvolvimento, é ou não é suprema, absoluta, imperdoável corrupção?

É ou não uma corrupção inominável reduzir o salário mínimo e isentar as petroleiras?

Será, juízes, procuradores, policiais federais, defensores públicos, será que as senhoras e os senhores são tão limitados, tão fronteiriços, tão pouco dotados de perspicácia e patriotismo ao ponto de engolirem essa roubalheira toda sem piscar?

Bom, eu não acredito, como alguns chegam a acusar, que os senhores e as senhoras são quintas-colunas, agentes estrangeiros, calabares, joaquins silvérios ou, então, cabos anselmos.

Não, não acredito.

Não acredito, mas a passividade das senhoras e dos senhores diante da destruição da soberania nacional, diante da submissão do Brasil às transnacionais, diante da liquidação dos direitos trabalhistas e sociais, diante da reintrodução da escravatura no país?.  essa passividade incomoda e desperta desconfianças, levanta suspeitas.

Pergunto, renovo a pergunta: como pode um país ser comandado por uma quadrilha, clara e explicitamente uma quadrilha, e tudo continuar como se nada estivesse acontecendo?

Responda, Moro.
Responda, Dallagnoll.
Responda, Carmem Lúcia.
Responda, Raquel Dodge.
Respondam, oh, ínclitos e severos ministros do Tribunal de Contas da União que ajudaram a derrubar uma presidente honesta.

Respondam, oh guardiões da moral, da ética, da honestidade, dos bons costumes, da família, da propriedade e da civilização cristã ocidental.

Respondam porque denunciaram, mandaram prender, processaram e condenaram tantos lobistas, corruptores de parlamentares e de dirigentes de estatais, mas pouco se dão se, por exemplo, lobistas da Shell, da Exxon e de outras petroleiras estrangeiras circulem pelo
Congresso obscenamente, a pressionar, a constranger parlamentares em defesa da entrega do pré-sal, e do desmantelamento indústria nacional do óleo e do gás?

Eu vi, senhoras e senhores. Eu vi com que liberdade e desfaçatez o lobista da Shell, semanas atrás, buscava angarias votos para aprovar a maldita, indecorosa MP franqueando todo o setor industrial nacional do petróleo à predação das multinacionais.

Já sei, já sei?. isso não vem, ao caso.

Fico cá pensando o que esses rapazes e essas moças, brilhantíssimos campeões de concursos públicos, fico pensando?..o que eles e elas conhecem de economia, da história e dos impasses históricos do desenvolvimento brasileiro?

Será que eles são tão tapados ao ponto de não saberem que sem energia, sem indústria, sem mercado consumidor, sem sistema financeiro público, para alavancar a economia,  sem infraestrutura não há futuro para qualquer país que seja? Esses são os ativos imprescindíveis para o desenvolvimento, para a remissão do atraso, para o bem-estar social e para a paz social.

Sem esses ativos, vamos nos escorar no quê? Na produção e exportação de commodities? Ora?

Mas, os nossos bravos e bravas lavajatinos não consideram o desbaratamento dos ativos nacionais uma forma de corrupção.

Senhoras, senhores, estamos falando da venda subfaturada –ou melhor, da doação- do país todo! Todo!

E quem o vende?

Um governo atolado, completamente submerso na corrupção.

E para que vende?

Para comprar parlamentares e assim escapar de ser julgado por corrupção.

Depois de jogar o petróleo pela janela, preparando assim o terreno para a nossa perpetuação no subdesenvolvimento, o governo aproveita a distração de um feriado prolongado e coloca em hasta pública o Banco do Brasil, a Caixa Econômica, a Eletrobrás, a Petrobrás e que mais seja de estatal.

Ladrões de dinheiro público vendendo o patrimônio público.

Pode isso, Moro?
Pode isso, Dallagnoll?
Pode isso, Carmem Lúcia?
Pode isso, Raquel Dodge?
Ou devo perguntar para o Arnaldo?

À véspera do leilão do pré-sal, semana passada, tive a esperança de que algum juiz intrépido ou algum procurador audacioso, iluminados pelos feéricos, espetaculosos exemplos da Lava Jato, impedissem esse supremo ato de corrupção praticado por um governo corrupto.

Mas, como isso não vinha ao caso, nada tinha com os pedalinhos, o tríplex, as palestras, o aluguel do apartamento, nenhum juiz, nenhum procurador, nenhum delegado da polícia federal, e nem aquele rapaz do TCU, tão rigoroso com a presidente Dilma, ninguém enfim, se lixou para o esbulho.

Ah, sim, não estava também no power point?.

É com desencanto e o mais profundo desânimo que pergunto:  por que Deus está sendo tão duro assim com o Brasil.

*Roberto Requião é senador da República no segundo mandato. Foi governador de estado por 3 mandatos, 12 anos, prefeito de Curitiba, secretário de estado, deputado, industrial, agricultor, oficial do exército brasileiro e advogado de movimento sociais. É graduado em direito e jornalismo com pós graduação em urbanismo e comunicação.

Por fim, existem milhões de outras questões que poderiam ser abordadas aqui, mas o fôlego acabou, ainda quero escrever sobre a escola sem partido, mas isso ficará para outra reflexão.

Acho que não podemos nos desesperar, temos que enfrentar o tempo que virá, e a quem teve paciência de ler tudo isto deixo este poema de Maiakovski, pertinente a quem resistir ou que simplesmente quer sobreviver... 



"Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.


Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.



Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
é agitado.


As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas."



Vladimir Maiakovski
 

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Reflexões da Bancada 11: Um Ensaio sobre a Solidão

Há um ano atrás eu falava que em tempos de tanto ódio, sorte de quem tem um amor de verdade para o compartilhar com os outros como exemplo de fé e de esperança, se não em um Mundo melhor, em relações melhores para que nos tornemos pessoas melhores.

Quem me conhece fora das redes sociais e mesmo dentro dela sabe o que aconteceu nestes dois últimos meses, e quero aproveitar este fato, a partir de uma série de reflexões, que não foram feitas necessáriamente construíndo modelos para fazer hoje aqui um ensaio sobre a solidão.
O assunto é tão pertinente, que resolvi aproveitar a minha própria reflexão do que aconteceu comigo para fazer esse ensaio, divídido em três partes.

A primeira parte é sobre a minha própria solidão, espero que a minha percepção possa servir a alguém ou alguéns...

Existe uma tendência nas sociedades industriais de relativizar a idéia de estar sozinho e a misturar com a solidão, embora o conceito das duas situações seja semelhante elas são distintas. Estar sozinho é um luxo em um mundo super-populoso como o nosso, mas estar solitário necessáriamente não é um estado de espírito ou uma opção, e essa distinção é o que define a solidão ao meu ver.
No final do século XX havia uma tendência de considerar a solidão como um momento de cura, de reflexão de si mesmo e também dos outros e a partir dela se construir ou reconstruir, mas a verdade, pelo menos a partir da minha experiência de hoje com relacionamentos dos mais diferentes níveis é que esses conceitos são de livros de auto-ajuda baratos. A solidão é uma prisão e talvez um dos grandes males da nossa sociedade. Ninguém está preparado para ficar solitário mesmo que essa condição seja desejada ou planejada, em determinado momento nossa essência social fala mais alto que a individual e de opção a solidão vira uma prisão.


 
Hoje enxergo pela minha própria experiência que a solidão é produto do medo e da imprevisibilidade da relação com as pessoas. É verdade que tendemos a cometer os mesmo erros e enganos, achando que com essa ou aquela pessoa ou pessoas será diferente , no entanto esses equivocos acabam transformando-se em algumas constantes que balisam as nossas relações com os outros e a partir destes padrões, com o passar do tempo e da vida, quando eles se tornam claros, e fluídos nos levam a desistir.


Na linha do tempo de cada um, e posso talvez falar pela minha,  a desistência pode ser transitória e/ou definitiva. Acho que a idade e a maturidade nos impõem a solidão, inicialmente como forma de cura, posteriomente como castigo auto-imposto.


Não consigo ainda formular uma boa explicação para o meu estado de solidão e o vazio que ela provoca, por que sou uma pessoa que sou todo "amor", talvez isso seja materia para outras reflexões ou não...

A segunda parte é sobre a solidão que vemos nos outros. Este mundo de hoje onde a vida digital se sobrepôs a vida humana é um paradoxo dentro de outro, por que com todas as possibilidades de comunicação que a era digital nos proporciona estamos cada vez mais solitários. Gosto de usar o exemplo da praça onde cresci que ao meu tempo de menino e de jovem era lotada de pessoas de diversas idades, crianças brincando, jovens conversando e namorando. Hoje ela é um espaço deserto e triste onde as árvores, algumas centenárias, são testemunhas dessa modificação. Qual o sentido de uma praça se não há quem brinque nela? Onde estão as crianças? Infelizmente com smartphones na mão. 


Esta solidão auto-imposta na fonte no começo das relações que construímos com os outros, e até mesmo substituindo de quem ainda viveu uma era sem a regra digital é a causa ao final da nossa falta de empatia, de indignação, de apatia sobre quase todas as coisas, algumas destas que seriam inaceitáveis de falar ou fazer há 20 anos atrás. Esta solidão social provocada por diversos fatores é uma das causas do ódio que vivemos hoje no Brasil.

 
Nossa sociedade é permeada pelo ter em vez de sentir. Embora quase vinte anos tenha se passado do início do século XXI, e segundo alguns futuristas dos anos de 1960 este dilema seria superado pela tecnologia da abundância,  esse é o debate mais fundamental do sentido das coisas. Um debate este que perdemos ao meu ver em todos os níveis. Pois o capital humano não é medido pelas experiências, pelas sucetibilidades, pelas sensibilidades, mas basicamente, pelo que cada um tem acumulado do ponto de vista material, todas essas capacidades sencientes, elas tem valor se cada individuo as usa apenas para acumular.

 
E para mim está uma das razões pelas quais somos uma sociedade infeliz, violenta e autoritária: por que a medição dos valores humanos se dão em um nivel rebaixado. Essas medições impedem de nos conhecer e conhecer quem está a nossa volta, um caminho expresso para ser solitário.

 
Finalmente a terceira parte dessa reflexão sobre a solidão é uma constatação cheia de obviedades mas que ainda assim é válida lembrar: A solidão é a anti-tese do amor, eu sempre achei que o ódio era o seu contrário (do amor), mas as pessoas odeiam amando então essa condição contraditória não existe. A anti-tese do amor é a solidão. O ódio ele é produzido por outros elementos, entre eles a inconformidade com determinados fatos e situações. É verdade também que o ódio pode vir da solidão, principalmente quando existem  sentimentos de vingança pessoal ou uma noção invariavelmente equivocada de propriedade sobre coisas e terceiros. Mas a verdade acerca da solidão é se ver em um mar de imobilizações, às vezes sem esperança, às vezes sem retorno e invariavelmente sem mudanças...

 
Espaços vazios deixam o caminho livre, não para amar, mas para odiar e isso explica o Brasil de hoje... 




terça-feira, 23 de outubro de 2018

WIP de Momento 20: Handley Page O/400

Bem pessoal, acabando esse modelo, não sei nem como considerando esses dois últimos meses desse ano que quero varrer do mapa...

Fotos da instalação dos montantes, asas e início do rigging...



Acho que nesta semana ele finalmente estará concluso...

terça-feira, 9 de outubro de 2018

WIP de Momento 20: Yakovlev Yak-25RV

Este modelo está sendo construído na oficina coletiva do CCCP como parte da série "Soviet" que desenvolvo ao longo deste ano neste espaço baseado nos modelos da Scissors and Planes na escala 1/100.

Não vou falar muito do avião em si neste momento pois teremos editorial próprio para ele, mas quero chamar a atenção para um material que estamos usando a título de experimentação: trata-se da massa de EVA, um produto inédito que busca substituir a massa de Biscuit, mas que tem uma potencialidade de aplicações no papelmodelismo, como elemento para enrigecer partes internas, aumentar áreas de colagem, pois ele seca bem em contato com o papel, aceita cola branca, tem pouquissima carga e não reage com a tinta da impressora...




Usei no canopy do Yak-25 e no nariz para ajudar a conformar e ao mesmo tempo fixar o peso que vai no nariz .




Claro que ainda temos que realizar mais testes mas vejo com um material imprecindível para futuras montagens...

Hoje na oficina pretendo finalizar este modelo. Ou pelo menos encaminhar a finalização em casa...




Fizemos na semana passada uma live em que falo sobre a massa, ela pode ser apreciada aqui.